NOTICIA DO JORNAL NOTÍCIAS AO MINUTO – LUSA

26 de junho de 2015

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Não obstante a procura dos cursos de Medicina continuar a superar largamente a oferta, a grande maioria dos médicos (65%) que neste momento se encontra a realizar o internato de especialidade pondera vir a exercer a profissão fora de Portugal após concluírem a formação. A vontade de sair de Portugal para exercer medicina aumenta com o decorrer do internato: no primeiro ano, 53 % dos inquiridos colocam a hipótese de deixar o país. Uma percentagem que aumenta para 75% no derradeiro ano de formação.

As conclusões são do estudo “Satisfação com a Especialidade entre os Internos da formação Específica em Portugal”, publicado na última edição da ‘Acta Médica Portuguesa’.

Trata-se do primeiro estudo sobre a satisfação durante o Internato médico, no âmbito do qual foram analisadas 804 respostas válidas, correspondentes a 12,25% do total de médicos que à data do início do estudo se encontrava em formação de Norte a Sul do País (5.788). A investigação foi conduzido por um grupo de 31 médicos, entre os quais o psiquiatra Tiago Reis Marques, recentemente distinguido com o prémio de Melhor Jovem Investigador.

Reagindo aos resultados, o bastonário da Ordem dos Médicos, afirmou que os mesmos “espelham bem a realidade do país e, no fundo, não surpreendem. Os médicos estão a emigrar cada vez mais e os internos já perceberam que para poderem construir uma carreira mais gratificante têm de sair do país”.

José Manuel Silva lamenta o estado geral da Saúde em Portugal: “Estamos a formar médicos muito acima das necessidades nacionais, mas o desinvestimento no SNS, a desqualificação do trabalho médico, as dificuldades do exercício de uma Medicina qualificada, o arrastamento burocrático dos concursos, os especialistas a serem remunerados como simples internos, etc., atiram os médicos para fora do SNS e de Portugal, quando fazem falta aos doentes portugueses, desperdiçando todo o investimento feito na sua formação”.

De referir que as razões mais frequentemente apontadas pelos inquiridos no estudo como justificação para ponderarem sair do país, foram de ordem financeira (41%) e de falta de oportunidades de trabalho (31%). Cerca de 20% dos médicos seleccionou a opção “outro”, que de acordo com os autores do inquérito se refere, na maioria das situações, à conjugação de várias destas hipóteses. Já 10% dos inquiridos apontou a falta de emprego como motivo para ponderar emigrar.

“O problema da emigração médica é hoje um assunto recorrente mas até ao momento não existia um estudo científico sobre este assunto feito em Portugal”, afirma Tiago Reis Marques, um dos autores do trabalho cujos resultados foram agora divulgados.

Para além dos resultados já referidos, o inquérito mostra que a grande maioria dos internos (88%) se encontram extremamente ou muito satisfeitos com a especialidade que escolheram, 7% manifestaram apenas “satisfação”. Já 5% da amostra afirmou-se pouco ou mesmo nada satisfeita com a especialidade escolhida.

Quando questionados sobre se escolheriam a mesma especialidade novamente, 91% dos médicos afirmou que sim; (78%) manifesta-se satisfeita com a qualidade da sua formação. No entanto, 81% considera que o panorama da prática médica piorou muito nos últimos anos, contra apenas 2% que acha que melhorou.

Cerca de 20% dos médicos em formação afirmarem que não voltariam a tirar o curso de Medicina caso pudessem voltar atrás.

A satisfação dos médicos com a profissão constitui um factor essencial para a qualidade dos cuidados prestados e para a satisfação dos utentes alvo desses cuidados, sendo hoje reconhecido “que a satisfação dos médicos com a sua profissão tem implicações não só ao nível do indivíduo, mas também na saúde dos seus doentes e em termos de Saúde Pública”, apontam os autores. Do mesmo modo, “os doentes de médicos que se consideram muito ou extremamente satisfeitos com o seu trabalho têm maiores níveis de contentamento com os cuidados médicos que receberam do que aqueles tratados por médicos insatisfeitos”. Por outro lado, sublinham, “médicos insatisfeitos têm mais problemas de saúde, maior probabilidade de ausências laborais injustificadas e de sofrerem de mais problemas psicológicos e mesmo burnout. Em termos de saúde pública, a necessidade de manter um correcto equilíbrio entre todas as especialidades médicas é fundamental para manter um sistema de saúde com elevados padrões de qualidade”.

O problema é que este equilíbrio necessário tem vindo a sofrer alterações com o êxodo de médicos de especialidades menos atractivas para outras percebidas como mais vantajosas. Uma realidade atestada pelo fenómeno, recorrente, de não preenchimento de todas as vagas de internato de especialidade, ou ainda a mudanças de especialidade, que segundo os autores comprometem “o futuro dessas especialidades e os cuidados de saúde em Portugal”.

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