JORNAL MUNDO PORTUGUÊS – ANA GRÁCIO PINTO

10 de novembro de 2015

::

Imagem

Afonso Marques é licenciado em Engenharia Eletrónica e Telecomunicações, tem um MBA e emigrou para o Reino Unido há dois anos. “Fui obrigado”, afirmou no questionário enviado aos investigadores que realizaram um estudo sobre o êxodo de portugueses altamente qualificados. «Brain Drain and Academic Mobility from Portugal to Europe” (Êxodo de Competência e a Mobilidade Académica de Portugal para a Europa) foi idealizado e coordenado por Rui Gomes e reuniu uma equipa de cientistas de universidades de Coimbra, Porto e Lisboa. E pode dizer-se que as conclusões são dramáticas. Até 2014, o país perdeu 185.853 cidadãos com licenciaturas, mestrados, doutoramentos, pós-graduações. Na maior parte dos casos não saíram por vontade própria, mas ‘empurrados’ por vários fatores, principalmente económicos, que geraram esta ‘fuga de cérebros’. E a maioria, não vai voltar a Portugal…

A maior parte dos emigrantes portugueses altamente qualificados (licenciados, mestrados, doutorados e pós-graduados) projeta-se numa emigração para toda a vida, seja no país onde atualmente reside (61,7%) ou noutros países europeus (68,9%). Esta é uma das principais conclusões do estudo BRADRAMO – Brain Drain and Academic Mobility from Portugal to Europe” (Êxodo de Competência e a Mobilidade Académica de Portugal para a Europa), idealizado e coordenado por Rui Gomes, investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. Apoiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, o projeto envolveu um grupo de investigadores do Instituto de Sociologia, Centro de Investigação e Intervenção Educativas, Centro de Investigação do Desporto e da Atividade Física e da Unidade de Investigação e Desenvolvimento em Educação e Formação.
Os investigadores quiseram perceber e analisar a emigração qualificada de Portugal, a chamada ‘fuga de cérebros’, que tem aumentado significativamente nos últimos anos. “Em 2011, para cada 100 emigrantes, 11 eram qualificados, o que significa 11%. Mas se olharmos apenas para os dois mais importantes países receptores da emigração qualificada portuguesa – Reino Unido e Alemanha – essa percentagem sobe para 21% da totalidade da emigração. Quando houver o Censo de 2021, a minha expectativa é que haja uma enorme surpresa e que verifiquemos que, da totalidade da emigração, estaremos na faixa dos 20% de emigração qualificada. É uma percentagem assustadora e brutal”, revela Rui Gomes, numa entrevista ao Mundo Português.
Para além de uma análise profunda e de uma investigação extensa para perceberem os factores que levaram à emigração de ‘cérebros’ nacionais, o estudo baseou-se também num questionário enviado entre maio e outubro de 2014, a cerca de 1700 destes emigrantes, tendo sido validados 1.011 questionários. Foram as respostas recebidas que permitiram perceber as suas motivações, o tempo que pretendem ficar fora, o que os levou a deixar o país. Uma decisão que para a grande maioria, teve uma profunda carga dramática e emocional.
Afonso Marques foi um dos entrevistados. É licenciado em Engenharia Eletrónica e Telecomunicações, tem um MBA em Marketing e Direção Comercial e emigrou para o Reino Unido há dois anos. “Fui obrigado”, afirmou no questionário. “Adoro o meu país. Para trás ficaram a minha filha, a minha mulher, os meus pais, a minha família, os meus amigos, a minha rua, os cheiros, os sabores, a terra, o tempo, as pessoas”, lamentou. Afonso Marques explica que, em Portugal, ainda tentou dar formação, mesmo a recibos verdes, mas com a crise “lá se foram as formações”. “Os empregos eram sempre qualquer coisa não de eletrónica mas com alguma coisa de eletricidade, por isso realização profissional é coisa que nunca tive” contou. Restou-lhe sair do país para conseguir trabalhar na área para a qual se formou. “Arranjei no Reino Unido (RU) a posição de Responsável Técnico de uma empresa de electrónica e a ganhar o suficiente para pagar as minhas contas de Portugal, as minhas contas no RU, vir a casa quase todos os fins-de-semana, e já pude voltar a fazer férias”, explicou.

Reino Unido é principal destino
É no Reino Unido que reside a maior parte dos ‘cérebros’ portugueses (26,7%), seguido de Alemanha (9,6%), França (8,9%) e Bélgica (5,5%), entre outros países, como revela o estudo. Curiosamente, a maioria é do sexo feminino (54,2%) e, do ponto de vista etário, percebe-se que entre os emigrantes qualificados predominam os que têm entre 30 e 39 anos (54%), enquanto 35,6% têm até 29 anos. Apenas 10,4% tem mais de 39 anos.
Quanto às habilitações, um grande número tem um mestrado (43%). Licenciados são 25,4% dos inquiridos, enquanto 22,3% tem um doutoramento e 9,2% concluiu uma pós-graduação. Segundo o estudo, em Portugal 30,6% dos inquiridos estavam desempregados e 10,2% em situação de subemprego (a receber apenas até 500 euros de salário), enquanto 32,5% recebia um salário entre 501 e 1000 euros e 15,8% tinha um vencimento entre 1001 e 1500 euros. Apenas 6,8% dos inquiridos auferia entre 1501 e 2000 mil euros. Uma realidade que mudou exponencialmente nos países para onde foram viver e trabalhar: 26,5% recebe mais de 3000 euros líquidos, 18,9% entre 1501 e 2000 euros, 17,2% tem um vencimento entre 2001 e 2500 euros, 14,4% recebe entre 1001 e 1500 euros e 11,1% tem um salário entre 2501 e 3000 euros.
Mas tão importante quanto o vencimento salarial, é a satisfação profissional. Nos países onde residiam por altura do questionário, 75,1% exercia uma profissão compatível com a sua formação e 9,1% tinha mesmo um trabalho mais exigente do que a sua formação.
Na sua maioria, os ‘cérebros’ que Portugal perde estão concentrados nas áreas de ciências, matemática e informática (35,2%), engenharias, indústria transformadora e construção (19,4%), ciências sociais, comércio e direito (18,5%). Há ainda profissionais das áreas de saúde e proteção social (10,3%) e artes e humanidades (8,5%).
A necessidade de realização profissional e progressão na carreira (95,4%) e a procura de melhores salários e o desemprego (80,6%) foram as razões mais apontadas pelos inquiridos para emigrarem, e mais de metade teve em conta a estabilidade dos sistemas de proteção social nos países de destino (61%) e a austeridade vivida em Portugal (58,5%), ao decidir emigrar.

Quanto perde Portugal? 8,9 mil milhões
O estudo BRADRAMO quantificou também quanto perde o país em euros, com a emigração destes portugueses altamente qualificados. Os 68,9% que afirmaram ter saído definitivamente ou por um prazo muito longo (que pode corresponder ao período de trabalho até à reforma) representam uma perda definitiva de seis mil milhões de euros. A esta verba, juntam-se 2,9 mil milhões que os investigadores consideraram “perda parcial” que depende, entre outros factores, do número de anos passados na emigração.
Valores que se referem não só ao investimento feito pelo país na educação superior destes portugueses, mas ainda os impostos não cobrados pelas Finanças e as contribuições para a Segurança Social, que não serão feitas no seu país de origem ao longo dos anos de trabalho.
Quem lucra, no fim as contas, são os países que recebem estes portugueses qualificados “a custo zero”, já que não investiram na sua formação, como sublinha Rui Gomes.
Isto sem esquecer que as competências adquiridas em Portugal, vão ser desenvolvidas fora. “Se estes 68,9% que dizem que não voltarão, realmente não voltarem, são 68,9% dos emigrantes qualificados que não trabalharão durante 40 anos para o desenvolvimento de Portugal”, alerta Rui Gomes.
O estudo deu ainda origem ao livro «Fuga de Cérebros – Retratos da Emigração Portuguesa Qualificada», que reúne percursos de emigração vividos por 20 dos 1.011 emigrantes qualificados que participaram no estudo. Os restantes retratos sociológicos podem ser consultados em www.bradramo.pt

«http://www.mundoportugues.org/article/view/62960»