JORNAL MUNDO PORTUGUÊS – ANA GRÁCIO PINTO

10 de novembro de 2015

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Até 2001, estavam emigrados 77.790 portugueses com qualificações académicas superiores (licenciatura, mestrado, doutoramento, pós-graduação). Entre 2001 e 2011 este número subiu para 145.853 e em apenas três anos – entre 2012 e 2014 – saíram de Portugal mais 40 mil pessoas altamente qualificadas, revela o «Êxodo de Competência e a Mobilidade Académica de Portugal para a Europa». Nesta entrevista ao Mundo Português, Rui Gomes, sublinha que se trata de “trabalhadores muito qualificados, de onde poderiam vir as fontes de inovação nas empresas, na cultura, na administração pública, etc”, e que não vão estar presentes no desenvolvimento do país e até na constituição de empresas. “Alguns deles vão tornar-se empresários fora do país”, acrescenta o investigador, lamentando que “tudo isso” seja “uma enorme perda” para Portugal.

No estudo, apresentam os dois modelos de análise da emigração: êxodo e diáspora. O primeiro pressupõe uma saída forçada, e o segundo indica mais uma circulação e o vislumbre do regresso. No caso dos portugueses altamente qualificados que emigram, Portugal está perante uma perda provavelmente definitiva dessas pessoas?
A ideia do êxodo é que os países emissores perdem e os países receptores ganham definitivamente. Existe uma perda dos países menos desenvolvidos em favor dos países mais desenvolvidos. Neste caso, estamos mesmo perante um êxodo. Portugal perde mesmo essas pessoas.
É evidente que temos que prosseguir o estudo e tencionamos fazê-lo nos próximos cinco anos, para verificarmos se as expetativas que tinham no momento do estudo se vão manter nos anos subsequentes, porque sabemos que existem muitos factores que podem intervir.
Queremos prosseguir o estudo com as mesmas pessoas, e é a primeira vez que isso se fará a nível mundial. Para daqui a cinco anos percebermos, desde já, a própria mobilidade destes entrevistados.
Por exemplo, neste momento, uma parte importante dos entrevistados já não está no mesmo emprego.

Quantos inquéritos foram enviados?
Temos quase 1700 inquéritos, mas foram validados 1011, porque houve inquéritos em que as pessoas não responderam uma pergunta e só validamos questionários totalmente respondidos. É uma amostra muito grande e muito boa. Estes emigrantes qualificados procuraram-nos depois de uma divulgação que fizemos (do estudo) em diferentes vias, como associações e ordens profissionais, associações de graduados na emigração particularmente a PARSUK (Reino Unido), a ASPPA (Alemanha) e a AGRAF (França), redes sociais e sujeitos individuais que já conhecíamos a partir de bases de dados do Programa Erasmus.
Presumíamos desde o início que a mobilidade académica era um fator importante e que haveria muitos que teriam feito programas de mobilidade (como o Erasmus) e tinham entrado num processo profissional na emigração, o que se veio a confirmar. Depois temos outros três grandes grupos de emigração: a transitória e pendular, daqueles que vão e vêm porque são as próprias empresas que os colocam fora; o grupo dos académicos e cientistas; e o grupo da emigração de longo prazo, com inserções no mercado de trabalho equivalentes. A avaliação que os emigrantes qualificados fazem no questionário, é a de que estão a trabalhar numa zona do mercado que corresponde à sua qualificação, ou acima da sua qualificação.

O estudo refere que, também em relação aos emigrantes qualificados, mantém-se a tendência de uma emigração maioritariamente Europeia. É interessante ainda a informação de que 46% dos inquiridos tem pelo menos uma experiência de emigração na família e, dentre esses, 37,7% tem uma experiência próxima (pais, irmãos)…
Em relação aos que têm experiência migratória familiar, há um nível muito elevado: chega quase aos 50%. A perceção dos inquiridos é que este fator não teve grande influência na sua decisão de emigrar. Mas temos o nosso plano de interpretação dos dados e das entrevistas e pressentimos que para as pessoas que têm casos próximos de emigração na família, a decisão de emigrar é bastante menos dramática, porque existe uma experiência anterior, normalmente positiva. Para quem não tem essa experiência, a rotura emocional é mais visível.

Disse já que estes emigrantes qualificados também não se assumem como ‘emigrantes’. Mas é isso que eles são…
É sobretudo uma questão de natureza simbólica. O que surge em primeiro plano é a ideia de serem cidadãos do mundo e depois a de estarem em mobilidade. É quase como se a Europa fosse uma casa comum. Aliás, um dos entrevistados tem uma frase interessante que expressa bem esta ideia: “Assim como os meus avós saíram de uma aldeia do Minho para a grande cidade, que era Braga, eu também vim para a ‘grande’ cidade: saí de Lisboa e vim para Londres”. A perceção que ele tem é que a mobilidade que fez é parecida com a dos avós. Ele até demora menos tempo a chegar a Londres do que os avós demoraram a chegar a Braga.
Esta cultura que podemos designar de ‘Geração Europa’ cria uma enorme liberdade neste processo de decisão, com mais ou menos dramatismo. As pessoas têm sempre uma grande amargura relacionada com o processo de emigração, mas também uma enorme liberdade. Há aqui uma dualidade: a liberdade leva-os a tomar conta do seu destino, mas porque sentiam que em Portugal não o tinham nas suas mãos, porque não controlavam a evolução na carreira profissional, porque os seus rendimentos já estavam a entrar num ponto de bloqueio, ou porque não conseguiram entrar num mercado de trabalho suficientemente estimulante. Eles foram formados numa lógica de inovação, de desenvolvimento tecnológico e não sentiam nas empresas portuguesas a capacidade de aproveitar esses conhecimentos. E a contradição entre expetativas criadas pela formação académica e a capacidade das empresas ou da administração pública responder a essa ambição, tornou inevitável este processo de emigração. E há, sobretudo, uma amargura.
Nunca condescendem com a situação económica e de organização das empresas, que os levou à emigração. Ou seja, dizem sempre ‘Portugal não nos aproveitou, eu queria ficar lá’, ninguém diz ‘eu queria sair desde sempre’. Uns tiveram uma desvalorização enorme, no momento da crise, outros pressentiram-na, anteciparam-na.

O que o levou a fazer este estudo?
Este projeto tem uma raiz biográfica também forte. O meu filho mais velho emigrou.
Uns meses antes de eu tomar a decisão de fazer o estudo, ele partiu para Londres, onde ainda permanece, onde casou. Está lá quase há cinco anos e é daqueles que não vai regressar. Aqui estava num centro de inovação e desenvolvimento tecnológico dos mais importantes do país, ligado à engenharia de software, e pressentiu que tinha chegado a uma altura de ‘bloqueio’ e que a partir dali já não progredia mais. Decidiu partir em busca de desafios profissionais. E essa foi uma questão fundamental que detetamos neste estudo.
No fundo, esta emigração segue a mesma lógica da emigração tradicional: ‘follow the money’ (‘siga o dinheiro’), seguem para onde estão os recursos. Isso é que é grave, esta organização europeia de circulação de pessoas que segue a mesma lógica desequilibrada e assimétrica da circulação de capitais. Ou seja, há uma concentração económica nos países centrais e os recursos humanos estão também a deslocar-se para lá, e são usados por esses países como uma espécie de reserva. Portugal, Espanha, Itália, Grécia, mais a Irlanda e também a Polónia, são os seis países emissores que funcionam como uma reserva. Os alemães precisam de engenheiros, vêm buscá-los aos países do Sul (da Europa). Existem programas de recrutamento de engenheiros nos países do Sul.

O estudo revela que em três anos, entre 2012 e 2014, Portugal perdeu 40 mil portugueses qualificados para a emigração. Isto significa que, por mês, uma média de 1.111 pessoas com nível de ensino superior saíram de Portugal…
É realmente muita gente e este é um cálculo ‘conservador’. Como não temos dados fiáveis para o período de 2012/2014, este é um cálculo feito a partir da taxa de emigrantes qualificados, detetada no Censo de 2011. Ou seja, em 2011, para cada 100 emigrantes, 11 eram qualificados, o que significa 11%. Mas se olharmos apenas para os dois mais importantes países receptores da emigração qualificada portuguesa – Reino Unido e Alemanha – essa percentagem sobe para 21% da totalidade da emigração. Quando houver o Censo de 2021, a minha expectativa é que haja uma enorme surpresa e que verifiquemos que, da totalidade da emigração, estaremos na faixa dos 20% de emigração qualificada. É uma percentagem assustadora e brutal.
Por outro lado, vemos que a circulação dos países do Norte para o Sul, particularmente nas áreas académicas científicas e de engenharia, é apenas transitória: participam em equipas de ‘ponta’ nos países do Sul, recolhem muito conhecimento e às vezes tecnologia que foi ali desenvolvida e depois regressam ao seu país de origem. E o que acontece é um saldo muitíssimo negativo entre aqueles que saem e os que entram.

E está em causa a saída de qualificados, com formação e experiência em áreas ‘chave’ para o país: ciências, informática, engenharias, saúde.
Sim, e não podemos desvalorizar as áreas culturais. Como é que este país, sem o jovens, vai manter características de agregação identitária que tradicionalmente sempre teve? Desde logo porque vai ‘escavar’ a crise demográfica. Só veremos o impacto desta emigração daqui a alguns anos, quando olharmos para os números demográficos, porque estes emigrantes estão em idade de ter filhos, ainda que seja só um. E há outro fator importante: a reprodução do investimento feito em educação, que se perde durante 40 anos. Se estes 68% que dizem que não voltarão, realmente não voltarem, são 68% dos emigrantes qualificados que não trabalharão durante 40 anos para o desenvolvimento de Portugal (68,9% dos inquiridos vê-se numa emigração para toda a vida noutros países europeus).

Uma das questões que o estudo levantou foi o custo financeiro para o país deste êxodo de ‘cérebros’, na maior parte dos casos, uma saída definitiva. Contabilizou-o em 8,9 mil milhões, dos quais seis mil milhões serão de perda definitiva (relativos aos 68,9% que não pretendem regressar).
Assumindo que estes 68,9% não regressam, isso corresponde a uma perda desses custos de investimento em educação.

Este é realmente um valor considerável. Mas um fator mais importante do que este custo financeiro, não será a perda de capital humano, para as empresas e para o país?
Esse é muitíssimo mais importante. São os tais 40 anos. São pessoas que seriam trabalhadores muito qualificados, de onde poderiam vir as fontes de inovação nas empresas, na cultura, na administração pública, etc. E não vão estar presentes nesse processo de desenvolvimento, na constituição de empresas. Alguns deles vão tornar-se empresários fora do país, assim como aconteceu com a emigração menos qualificada do passado.
O que verificamos é que são pessoas genericamente bem sucedidas, têm percursos muito rápidos de progressão, por exemplo, na carreira científica. Encontramos várias pessoas que em Portugal não conseguiram sequer obter uma bolsa (de estudos) para fazerem o seu doutoramento, no entanto, hoje estão no Imperial College London, no Collège de France, em sítios de ‘ponta’ a revelar o seu valor. São talentos que se perdem pela pequenez do sistema científico nacional, pela incapacidade de perceber o desenvolvimento das carreiras. E tudo isso, é uma enorme perda.

E o sistema de ensino português é tão bom que estes países recetores querem os nossos ‘cérebros’…
O indicador mais usado na Europa para ser ver o aumento das qualificações superiores nos países, é a graduação (licenciados, mestres e doutores) entre os 30 e os 34 anos. Até 2020 o objectivo europeu é obter 40% nessa fatia de idades. Nós estamos à beira dos 30%, neste momento. Estamos muito longe, não vamos lá chegar (aos 40%) quando a maior parte dos países europeus já chegaram lá. Isto quer dizer que não temos formação a mais. Não há emigração por termos formação a mais, continuamos a ter formação de menos. Nem é um problema de desadequação entre o tipo de formações e o mercado de trabalho. O problema é que a economia não acompanhou a produção de ‘cérebros’, de qualificações no país.

Cerca de 95% dos inquiridos referiram razões profissionais para emigrar, uma percentagem um pouco acima das razões financeiras, apontadas por 80%…
Mas estas duas razões estão muito juntas. Quando observamos o salário médio que tinham, em Portugal, as pessoas que responderam ao questionário, vemos que boa parte deles estava no desemprego, outros tinham um emprego ocasional e os que estavam a trabalhar, recebiam, na maior parte, salários entre 500 e 1000 euros. Nós não podemos dizer que há razões profissionais por um lado e razões económicas por outro, porque são as mesmas pessoas que assinalam as duas razões.

Os quase três anos de elaboração do estudo e os inquéritos respondidos, permitiram a si e à equipa que liderou, terem um conhecimento aprofundado desta problemática. Se pudesse apontar aos governantes medidas para que esta ‘fuga de cérebros’ não continue, quais acham que deveriam ser tomadas?
Os cientistas sociais não gostam de apresentar aos políticos medidas, desde logo porque analisamos a realidade e tentamos encontrar o que produziu essa realidade. O que sabemos é que esta realidade foi criada pela desvalorização dos diplomas; pela desvalorização da mão-de-obra qualificada em geral, com pressão sobre os salários; por um problema histórico de falta de qualificação dos empresários portugueses que arrasta uma certa incapacidade de inovação e organização das empresas, privadas e públicas, de modo a promover o conhecimento dentro dessas organizações. Um número muito reduzido de qualificações mais elevadas, como doutoramentos, é absorvido pelas empresas portuguesas. Estes são três fatores muito importantes. Se fizermos o contrário disto…
Não é possível continuar a pensar num país que produz qualificações tão boas, sem ter capacidade empresarial para acolher essas qualificações e para garantir condições de trabalho a essas pessoas. Se baixarmos os salários – e foi o que aconteceu nos últimos anos – os qualificados vão embora porque não aceitam entrar em mobilidade social descendente. É um problema de democracia económica, de reconhecimento do mérito. Há anúncios a procurar engenheiros a 600 euros. Não é possível pensar que se atrai pessoas de qualidade com uma política salarial deste tipo. Quando procuram a realização profissional, estes qualificados procuram um contexto favorável em que possam ter autonomia, possam realizar projectos, seguir um caminho da realização profissional.

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