VISÃO – INÊS RAPAZOTE

17 de dezembro de 2015

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Números de saídas e entradas no País, os destinos mais desejados, as qualificações dos que deixam Portugal, causas e consequências destes fluxos são apenas alguns pontos em discussão, esta tarde, no seminário A Emigração Portuguesa no século XXI

Boa notícia: os valores da emigração portuguesa dão sinais de terem estabilizado. A má notícia é que a estabilização se registou em valores muito elevados, superiores a 100 mil pessoas por ano. “Só encontramos valores destes (e ainda mais altos) no final dos anos 60, início dos anos 70”, contextualiza Rui Pena Pires, coordenador científico do Observatório da Emigração, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa.

É preciso perceber o fenómeno. Nos anos 60 e 70 do século XX, a emigração tinha origem na “pobreza e falta de expectativa que a situação se alterasse, na fuga à guerra e em razões políticas”, explicou Pena Pires à VISÃO. E que razões levam os portugueses a deixar o País, nos dias que correm? Nos últimos cinco ou seis anos, a emigração deve-se “à crise e às políticas encontradas para solucionar a crise, à estagnação na criação de emprego e de salários, ao emprego precário e mal remunerado”. E depois, adverte, “há uma componente que existe e se manterá independentemente da crise, que é a livre circulação não Espaço Europeu.”

O cenário, por si só, não é otimista, mas agrava-se ao verificar-se “não haver fluxos de compensação. Os que entram em Portugal não substituem os que saem”. Dito por outras palavras: o facto de haver “mais emigração, como consequência da crise, não está a ser compensado por Portugal se inserir num espaço [europeu] mais aberto, que permite saídas, mas também entradas. Isso não está a acontecer, o que terá custos demográficos, sociais e económicos” relevantes.

Por onde anda a cegonha?

Os custos, para o País, são variados. E a demografia é um deles. “Todas as projeções apontam para uma recessão demográfica importante”, garante Pena Pires. “O cenário mais pessimista do INE, há dois ou três anos, não previa o saldo migratório” que se veio a verificar – eram muito menores. E esta realidade terá um grande impacto no salto natural.

De facto, os números mostram que atualmente tanto emigram homens como mulheres, em percentagens iguais. E as mulheres emigram em idade fértil…

E voltam? O investigador responde com um exemplo: há cerca de 30 mil portugueses que partem, por ano, para o Reino Unido (RU). Mas o crescimento da população portuguesa no RU é de apenas 17 mil (entre os que entram, os que saem e os que morrem). Novamente, há uma boa e uma má notícia: “parte [destes 30 mil que vão, por ano, viver para o RU] pode reemigrar, mas alguns (talvez 10 mil) regressam”, diz Pena Pires. Esta é a boa notícia. A má é que “mais de metade fica [no RU], o que é preocupante”.

E sobre as qualificações? Há fuga de cérebros?

“A maioria continua a ser uma emigração não qualificada”, sem ensino superior (a maior parte tem, no máximo, o 9º ano de escolaridade, revelam os dados). “Os únicos países onde um terço da população portuguesa é qualificada são os países nórdicos – Noruega, Suécia e Dinamarca”.

Nos últimos Censos franceses, com dados de 2012, podia ler-se que, entre os 10 países de origem com emigrantes mais desqualificados residentes em França, Portugal era o mais desqualificado, disse ainda Pena Pires.

Mas estes dados não invalidam a preocupação com a saída, de Portugal, de pessoal qualificado. A emigração de pessoas com o ensino superior deve-se, sobretudo, ao “congelamento de admissões e progressão na carreira, no setor público, que é o maior empregador de licenciados do País”, revela ainda o investigador.

Estas e outras questões serão abordadas, esta tarde, no Seminário A Emigração Portuguesa no século XXI, que decorrerá no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa.

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