NOTÍCIA DO JORNAL DE NEGÓCIOS – ANTÓNIO LARGUESA

16 de dezembro de 2013

A falta de emprego ou a precariedade laboral são uma das principais razões para a “sangria” de jovens portugueses qualificados nos últimos anos. No entanto, antes e depois da intervenção da troika, há também quem tenha deixado para trás um emprego estável com uma remuneração aceitável, em busca de algo que não encontrava em Portugal. O que move estes emigrantes “voluntários” e o que é que os podia fazer voltar?

Tiago pediu tempo e mais dinheiro ao ‘credor’ norueguês

Enquanto as demissões de Gaspar e Portas mergulhavam Portugal numa crise política e o Governo recusava pedir à troika “mais tempo ou mais dinheiro”, Tiago Braz deixava o emprego como engenheiro numa empresa nacional de engenharia a operar no sector petroquímico e embarcava para Oslo, para ir trabalhar numa companhia de construção de navios de transporte de gases liquefeitos. “Saí pelo gosto de explorar e conhecer culturas diferentes e novos locais, pela vontade de mudar de vida, por curiosidade, por uma remuneração mais atractiva, por menor carga horária e para enriquecer o meu leque de competências”, justificou o jovem de 28 anos, natural da Figueira da Foz. Não ganhava mal, mas foi ganhar quatro vezes mais. Já o facto de sair mais cedo do emprego na Noruega deixa-lhe “o tempo livre necessário para poder gozar a vida social”. Para trás deixou um País com “boa gente, boa gastronomia, bom clima e excelentes paisagens”, mas onde “não há tempo nem dinheiro” para desfrutar de tudo isso. “Também sinto que deixei para trás as pessoas mais competentes e dedicadas com quem já trabalhei. Não voltei a encontrar fora de Portugal tanta gente tão competente. Por outro lado, as pessoas mais incompetentes que já encontrei também estão em Portugal”, complementou Tiago Braz. Uma “oportunidade de trabalho estimulante ou uma janela para criar um negócio” poderiam fazê-lo regressar “voluntariamente” a Portugal, tal como saiu em Junho. Algo que consegue imaginar-se a fazer porque não partiu “com rancor”, ao contrário de outros emigrantes que “provavelmente foram vítimas de meia dúzia de ‘chico espertos’ que tornaram a vida dessas pessoas insustentável” na origem. Essa “praga” e o facto de o País “não se saber vender” são os dois problemas que identifica a partir do exterior. E que, enquanto não se resolverem em definitivo, farão “as troikas”… ir e voltar.

“Dar mundo” aos dois filhos levou Rui até ao Eurostat

Embora não estivesse numa situação completamente estável, o contrato não era precário e tinha até uma remuneração “relativamente boa” para o que fazia e para o custo de vida em Aveiro. “Saí por opção. Preferi dar uma visão diferente do mundo aos meus filhos, que hoje falam três línguas, e dar-lhes oportunidades que não teriam se tivesse ficado em Portugal”, justificou Rui Gonçalves, 44 anos. Trabalhava como programador de software numa multinacional que tinha como principal cliente a maior empresa de telecomunicações dos Estados Unidos. Em Outubro de 2012 iniciou funções no Eurostat, organismo da Comissão Europeia, no Luxemburgo. Ganha hoje “bastante mais”, mas garante que esse “nunca foi o factor mais determinante para a mudança”. Antes de emigrar no ano passado, já tinha trabalhado na Califórnia, Inglaterra e Japão. Foram experiências que “mudaram radicalmente” a forma como olha o mundo e queria que os filhos – cujas idades permitiam uma mudança sem grandes custos emocionais – tivessem também, antes da idade adulta, a “oportunidade de saber que o mundo é mais diverso que aquele que encontram na sua escola, na sua rua, em Portugal”. A viver numa cidade onde há clubes com o nome Benfica e supermercados com bacalhau seco e chouriços, do que sente falta, além da família, é das montanhas e do pôr-do-sol numa esplanada à beira-mar com os amigos. Razões insuficientes, porém, para pensar voltar antes da reforma. Até porque, tendo saído “voluntariamente”, “há muito mais em jogo do que apenas a falta de emprego ou a precariedade”. “É complicado. Uma vez experimentada a valorização e o mérito que recebemos, ou temos, pelo nosso trabalho, é difícil voltar. Raramente senti em Portugal que os meus conhecimentos ou o meu trabalho fossem usados de forma coerente. É a tão famosa falta de gestão e planeamento”, concluiu.

“Já tinha vivido fora e voltar para Portugal foi difícil. Acabei por sentir que a minha aventura ainda não estava terminada e precisava de sair outra vez. Desde pequena que vinha visitar família a Israel, sempre me fascinou [o país], e sempre disse que um dia haveria de vir passar cá um ano. Vim para ficar um ano, mas rapidamente decidi ficar mais tempo”.

Foi em Janeiro de 2009 que Sara Mucznik Gomes deixou o contrato como gestora de produto e o “salário normal” que lhe pagavam numa empresa de marketing em Lisboa e decidiu partir para Israel, sem trabalho. Com família a viver naquele país do Médio Oriente, que diz “adorar”, Sara esteve a aprender hebraico e, passados oito meses, começou a trabalhar como gestora de clientes na TokenAds, uma “start up” que coloca anúncios em jogos “online”. Quase cinco anos depois, já entrada nos “intas”, trabalha na ONG “Save a Child’s Heart”, que leva crianças de países subdesenvolvidos a Israel para fazerem operações ao coração. Mais do que trabalhar menos tempo, diz que as horas são mais produtivas do que eram em Portugal. “Apesar de o meu horário ser até as 18h, não podia sair antes das 19h ou 19h30 porque era mal visto pelos colegas de trabalho. Aqui ninguém controla os meus horários, o importante é o trabalho estar feito”, compara a lisboeta, frisando o impacto que isso tem na vida pós-laboral. Em contrapartida, ali só tem dez dias de férias por ano. Ao falar de um país pequeno, em que não pode viajar de carro para os países vizinhos e onde vivem pessoas que “andam sempre a correr”, Sara sente saudades da “calma e do silêncio de Portugal, da boa educação e cortesia dos portugueses”. Já lhe passou “muitas vezes” pela cabeça regressar, mas esse é um desejo que só equaciona concretizar “daqui a uns anos quando a situação estiver melhor” e se o marido sul-africano, que não fala português, tiver a garantia prévia de um trabalho “bom”.

Hugo trocou o “emprego para a vida” pelo desafio

Em Setembro de 2007, Hugo Simão apresentou a demissão do cargo que ocupava na Direcção de Meios de Pagamento da Caixa Geral de Depósitos para “embarcar na aventura incerta” do Inov Contacto, um programa de estágios internacionais gerido pela AICEP, com duração limitada a nove meses e sem saber a empresa ou o país em que seria colocado. Deixava “aquilo que em Portugal, mesmo com todos os problemas e crises, é considerado ‘um emprego para a vida'”, por achar que aquela era a oportunidade para adocicar o “travo amargo” de não ter feito o programa Erasmus durante o curso tirado no ISCTE. E ter o desafio no estrangeiro que “seria complicado” de surgir se continuasse no banco público. “As principais razões que me levaram a sair do país foram a pequena dimensão de Portugal; apreender novos métodos de fazer as coisas; conhecer novas pessoas e culturas; ter uma vivência internacional para valorizar o meu currículo; e testar a minha capacidade de triunfar em ambientes adversos, ou pelo menos com apoio bastante limitado”, enumerou Hugo Simão, de 33 anos. Não se arrepende da “melhor decisão “da sua vida – de que só a avó continua a discordar -, que lhe “permitiu crescer como pessoa e ter uma valorização profissional que dificilmente em Portugal conseguiria alcançar”. Primeiro em Londres, onde foi colocado pela agência hoje liderada por Pedro Reis para abrir o escritório da Quidgest, uma empresa nacional de software que no fim do estágio lhe ofereceu emprego (que recusou) em Portugal. Desde 2011 em São Paulo, onde é director comercial da TSYS, empresa de processamento de cartões de crédito, responsável pela fixação de preços no mercado brasileiro. De expatriado passou a contratado local; de rapaz solteiro a homem com família constituída do outro lado do Atlântico, o que “dificulta ainda mais um regresso” a Portugal.

“Bichinho” ainda ataca a zona de conforto da Sofia

Em jeito profético, Sofia Correia “sempre soube que, em algum momento, a [sua] história teria de passar por viver e interagir com outras culturas” e que “precisava sair do espaço que [lhe] era familiar e procurar outros estímulos e desafios em ambientes onde pudesse conhecer e trabalhar com pessoas do mundo inteiro”. Há seis anos, seduzida pela “aprendizagem, o tipo de empresa e a multiculturalidade”, trocou o emprego no departamento de comunicação da IBM em Portugal por um estágio na consultora PricewaterhouseCoopers (PwC) em Madrid, onde “na época havia bastante dinâmica e era fácil encontrar novas oportunidades”. Passou pelo sector de Grande Consumo (Avon) e pela consultoria de Recursos Humanos (Hays) antes de rumar ao escritório da AICEP nos Estados Unidos, em 2009. No final desse ano, com dificuldades em conseguir visto, decidiu “dar uma oportunidade” de se reintegrar em Portugal após três anos no estrangeiro. Essa experiência de rotação e em diferentes sectores que trazia no currículo foi “bastante valorizada” pelos empregadores e acabou por ter diferentes propostas. Natural de Coimbra, onde estudou Economia, trabalha actualmente no Porto, na área do comércio internacional de vinhos. Aos 32 anos, porém, a história pode estar prestes a repetir-se. E os motivos são em tudo semelhantes aos que invocou em 2006, quando tinha menos carimbos no passaporte. “Apesar de não me encontrar numa situação precária, como tantas pessoas da minha e de outras gerações, sinto falta de um nível de estímulo, de desafio e de aprendizagem como o que tive durante o período que vivi fora”, relatou Sofia Correia. “Além disso, a vivência que tive transformou-me em diversos aspectos e o ‘bichinho’ de voltar a viver num ambiente multicultural e com uma energia mais positiva não desapareceu”, completou.