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AFONSO MARQUES – REINO UNIDO

Eng. Electrónica e Telecomunicações, MBA Marketing e Direcção Comercial. Emigrado no Reino Unido há 2 anos

“Fui obrigado!

Adoro o meu país! Para trás ficaram a minha filha, a minha mulher, os meus pais, a minha família, os meus amigos, a minha rua, os cheiros, os sabores, a terra, o tempo, as pessoas…

No meu ramo (electrónica) pouco ou nada há para fazer, como diria alguém “Portugal é um país de serviços”! Ainda tentei o ensino (a recibos verdes) mas veio a crise e lá se foram as formações. O próprio ensino está minado pois quando se paga a alguém para ter formação, para se enriquecer com conhecimento, é porque alguma coisa está muito mal… Mas isto sou eu que sou um lírico.

Os empregos eram sempre qualquer coisa não de electrónica mas com alguma coisa de electricidade, por isso realização profissional é coisa que nunca tive…

Abri uma empresa mas tinha mais clientes a não pagarem do que a pagarem, conclusão, fui obrigado a fechar.

No capítulo das mentiras, ou mais politicamente correcto, promessas não cumpridas, perdi-lhe a conta. Foram umas atrás das outras…

Depois vieram os impostos, a segurança social, o IVA, etc, etc, etc e o poder de compra a baixar.

Até que chegou o dia da ‘conversa’… Com algum medo perguntei à minha mulher “o que achas de eu emigrar?” Resposta: “Desde que compense financeiramente e possas vir a casa de forma algo frequente, não vejo porque não.”

Diria um grande amigo, e meu editor, o Eng. António Malheiro: “A Ryanair fez mais pela democratização da Europa do que qualquer governo.”

Arranjei no Reino Unido (RU) a posição de Responsável Técnico de uma empresa de electrónica e a ganhar o suficiente para pagar as minhas contas de Portugal, as minhas contas no RU, vir a casa (Portugal) quase todos os fins-de-semana, e já pude voltar a fazer férias.

O RU acolheu-me de uma forma fantástica. Foi fácil entrar no sistema. Não tem o clima de Portugal mas tem tempo, tem cultura, tem gente civilizada, e de uma forma geral as leis cumprem-se.

Para acabar, quando se sai a horas em Portugal a pergunta é: “não tens mais nada para fazer?” Quando se sai a horas no Reino Unido a pergunta é: “correu bem o dia?”

Mas volto a dizer, fui obrigado…

Espero voltar um dia…”

 

CARLOS GONZAGA E LILIANA ROSA – FRANÇA

“Arquitecto 40 anos mestre em engenharia civil. A minha mulher licenciada em Historia (ramo património) , pós-graduação em gestão documental.
Emigrados em França há 2 anos.
Foi a precariedade que nos levou a tentar a emigração. Há 15 anos que trabalhava como profissional liberal. A minha mulher estava em vias de perder trabalho.
Tentámos. Aceitei trabalhar como topógrafo durante 2 anos na região parisiense.
Mudamos para o sul da França há 3 meses.
A precariedade também espreita aqui. É muito mais fácil uma pessoa sem estudos se conseguir adaptar ao mercado de trabalho de cá do que alguém com estudos superiores.
Só eu trabalho e mesmo assim tenho o emprego em risco.
Os problemas de cá são os mesmos de Portugal.
Gostamos desta zona e esperamos conseguir nos integrar cá mas as coisas são tão incertas quando nos encontramos completamente isolados num pais estrangeiro que tudo se pode desmoronar muito rapidamente.
Diferenças relativamente a Portugal: trabalha-se muito mais (sei que é assunto sensível mas é a realidade), a responsabilidades são maiores e têm consequências. A luta contra o erro é constante e as empresas não dão tempo às pessoas de errarem. Se errarmos somos despedidos, ponto.
O que falta cá, a família e os amigos (é uma questão inultrapassável e deixa um vazio constante nas nossas vidas).

Não acreditem nas fantasias que lhes vendem sobre a emigração de sucesso nos meios de comunicação social. Há coisas boas mas as perdas são muitíssimo profundas.
Os emigrantes também gostam de vender um quadro idílico (não querem que os compatriotas os vejam como uns falhados) mas a realidade é frequentemente bem diferente.

A emigração forçada é um processo violento onde o sentimento de perda e o stress provocado pela inserção num país diferente marcam as pessoas de tal forma que só quem passa por isso pode entender.

Conclusão é pena sermos originários de um pais onde a culpa sempre e invariavelmente morre solteira. Foi esse estado de coisas que conduziu o país ao beco sem saída em que se encontra e apesar disso os políticos e influentes sempre conseguem vender a ideia de que é tudo normal.

Não é normal.”

 

TESTEMUNHO ANÓNIMO- BÉLGICA

“Penso que há para todas as situações: os que querem sair e os que não querem sair mas não têm outra hipótese senão emigrar. O país, neste momento, não apresenta uma estrutura que suporte e dê  condições a estas pessoas para desempenharem as funções para as quais foram formadas, e o país investiu dinheiro, com dignidade. É necessária uma mudança de mentalidade e de canalização de políticas para um maior apoio à investigação e desenvolvimento, os quais, a longo prazo trarão os devidos efeitos positivos na economia. Todas estas alterações, são investimentos de longo prazo que levam 1 ou 2 gerações a vencer. No entanto, Portugal tem que estar ciente disso, e não deverá por a perder o investimento feito nos últimos 10 anos.”

 

TESTEMUNHO ANÓNIMO – PORTUGAL

“A emigração de pessoas qualificadas deve ser distinguida da emigração convencional  na medida em que a mobilidade é um recurso e um padrão de carreira em várias profissões de elevada qualificação. Neste sentido, não obedece por regra a uma simples lógica forçada de saída do país por necessidade económica; faz parte normal da construção de certas carreiras profissionais com elevada qualificação. Contudo, o contexto de crise financeira que marcou Portugal obrigou a que a esse padrão de construção de carreiras se acrescentasse o padrão  convencional de emigração portuguesa: isto é , a falta de opções e alternativas de emprego qualificado em Portugal OBRIGOU muitos jovens e profissionais qualificados a emigrar. Desta feita, não o fizeram por opção e por motivos de construção de carreiras, mas por necessidade de sobrevivência e de manutenção de estilo de vida.”

 

TESTEMUNHO ANÓNIMO – BULGÁRIA

“A razão por eu ter emigrado foi muito diferente da maioria dos Portugueses que saem no momento do país. Na altura não estávamos em crise e eu conseguiria trabalho facilmente. Mas queria alargar horizontes e ter experiências diferentes e possivelmente melhores a nível profissional.

Quanto à realidade actual, acho que muitos dos empregadores em Portugal não valorizam os seus trabalhadores, o que desmotiva as pessoas. Quanto ao governo, acho que deveria repensar na quantidade de formação qualificada que o país investe para não ser aproveitada no próprio país. No momento parece que este rácio está muito desequilibrado e se há pessoas qualificadas a mais nalgumas áreas, faltam noutras.”